Este é o Tempo

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ESTE É O TEMPO PARA ESPERAR CONTRA TODA A ESPERANÇA, PARA TRABALHAR PELA JUSTIÇA E PELA PAZ, PARA AMAR AS PESSOAS, PARA AMÁ-LAS UMA A UMA

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Salvador



Artigo de D. Nuno Brás na Voz da Verdade (19.06.2016)

Salvador
Até ao momento em que estou a escrever este artigo, o Salvador está bem. Já deixou os cuidados intensivos. Para ele, graças a Deus, houve lugar não já numa humilde estalagem mas num hospital. E, para o salvar, foram usados os conhecimentos fruto de um progresso ímpar.

Lourenço Salvador: assim o quiseram chamar. Chamam-lhe também “bebé milagre”. Quando nasceu, emocionou muitos à sua volta e pelo mundo inteiro. Fruto do avanço científico, da dedicação de tantos, do querer de muitos.

Uma vida foi salva no ventre materno. É a prova provada de que bebé e mãe são dois seres diferentes, mesmo antes de aquele ver a luz do dia: a mãe estava morta; o filho continuava vivo e está hoje com boas perspectivas de chegar a homem feito.

Mesmo correndo todos os riscos – até riscos futuros, porque são desconhecidas as consequências desta gestação singular – valeu a pena. Valeu a pena todo o saber, toda a técnica, toda a dedicação, toda a humanidade, toda a ética, todo o esforço. A vida triunfou, o ser humano mostrou-se grande e mostrou que sabe ser grande quando respeita e luta pela vida.

O milagre que trouxe o Salvador à luz do dia e que o mantém em vida teve lugar na Maternidade Alfredo da Costa. Sim, é o mesmo lugar onde todos os dias tem lugar o milagre da vida de tantos que ali vêem a luz do dia.

E sim, é a mesma “maternidade” (?) onde todos os dias são praticados abortos; onde todos os dias tantos (sempre demasiados) são mortos, arrancados do seio materno através de um acto médico protegido pela lei do Estado e pago pelos impostos da nação. Inocentes, só não têm quem os defenda, quem arrisque por eles, quem os mantenha em vida – e nem eram necessários tantos esforços nem tantos meios técnicos. Apenas são vistos como estando a mais no meio desta sociedade que descarta pessoas como se fossem coisas. Ou então são entendidos como incómodo para as mães que dizem ter direitos sobre o seu corpo – e esquecem que não são elas mas outro ser, outra vida que lhes foi entregue para protegerem.

Confesso que tantas vezes não consigo compreender esta sociedade tão contraditória, capaz do melhor e do pior.